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Impactos da Crise Econômica Argentina nas Operações de Exportação

A Argentina atravessa sua pior crise do século XXI e os caminhos que têm tomado afetam as empresas brasileiras com as quais comercializam.

 

Os argentinos vivem sua terceira grande crise em quatro décadas de democracia e os problemas herdados das últimas crises voltam a ser realidade agora que a inflação superou 100% no acumulado anual. A falta de diretrizes econômicas sólidas impacta no desequilíbrio fiscal, transformado em descontrole monetário como resultado da impressão de dinheiro para financiar o déficit, que, por sua vez, desvaloriza o câmbio. A tentativa do governo em manter o dólar oficial como âncora nominal e taxa de câmbio acaba resultando em uma disparidade de mais de 100% com o câmbio paralelo, usado no quotidiano.


Ao tentar frear o desequilíbrio fiscal, o governo adotou medidas como elevar a taxa de juros para 97% (13,25% no Brasil, para comparação) para proteger os investimentos em moeda local e prevenir a volatilidade financeira provocada pelo aumento da inflação. Ademais, a fim de balancear as reservas cambiais, o Executivo argentino tem adotado medidas como bloqueio na liberação de licenças de importação (Siras), aumento dos impostos e atrasos burocráticos que visam dar mais fôlego às reservas em dólares no país. As ações, muitas vezes premeditadas, vêm encontrando reações negativas tanto para importadores como para exportadores.


Nesse contexto, é posto em análise as relações bilaterais Brasil e Argentina. Historicamente, a Argentina sempre foi um importante destino das exportações brasileiras, principalmente de produtos de maior valor agregado. O Brasil ocupava a posição de principal parceiro global da Argentina, porém seu lugar foi arrebatado pela China em 2020, em um contexto de crescimento do país asiático na América do Sul e redução da presença brasileira.


Entretanto, na iminência das eleições argentinas concretizarem um novo presidente, a agenda bilateral se reaproximou com o alinhamento ideológico entre Lula e Fernández. Como exemplos, desde a posse do presidente brasileiro, embora com frustrações, o Brasil retomou as reuniões da Comissão Mista de Cooperação Técnica Brasil – Argentina (Comista Bra-Arg), reiniciou conversas sobre linha de crédito para exportadores nacionais acederem ao mercado argentino, pressionou o FMI para renegociação da dívida argentina e também o Banco dos BRICS para conceder uma linha de crédito especial ao vizinho.


Apesar dos esforços brasileiros e argentinos, a crise perdura. O protecionismo argentino crescente tem se apresentado como uma alternativa para conseguir cumprir com as responsabilidades fiscais e com os empréstimos assumidos junto ao FMI, colocando o governo de Alberto Fernandez em uma situação extremamente delicada.


Para as empresas brasileiras que atuam com exportações à Argentina, garantir que seus compradores cumpram seus pagamentos ou que consigam manter seu ritmo é o desafio primordial. Por outro lado, para empresas estrangeiras que atuam diretamente no mercado argentino, a retirada de dividendos talvez seja o maior desafio enquanto o acesso a dólares é escasso. Uma vez que o Brasil está envolvido tanto no comércio internacional como nos investimentos na Argentina, é fundamental que a crise no país vizinho seja um assunto de destaque na política internacional brasileira, a despeito de quem for o eleito nas eleições argentinas de outubro de 2023.


Autores: Vito Villar - Consultor de Comércio Internacional na BMJ Consultores Associados

João Marcos Soares Matos - Consultor de Comércio Internacional na BMJ Consultores Associados


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